Dia 01

  "Escreva um diário". ela disse. "Tenha um blog", ela disse. Eu só vou obedecer porque jurei para a Clarice que ia tentar mais uma vez, pela última vez, alguma coisa que me ajudasse a lidar com a droga do mundo e comigo mesmo.
  Como eu devo fazer isso? Ela não me explicou. Psicólogos não explicam nada, eles nunca explicam nada, eles sabem o que você deve fazer com a sua vida, mas eles não te dizem. Eu estou pouco me fodendo para meu livre arbítrio ou minha autonomia, eu só quero achar um jeito de ficar em paz, um que não seja com uma corda e uma cadeira.
  Demorei muito para reconhecer que eu sou meio perturbado, não num bom sentido, claro. Eu sou perturbado num sentido perverso e ruim, na real eu sempre soube, só nunca quis admitir. Ao contrário dos idiotas, todo cara estragado da cabeça, sabe que ele é estragado da droga da cabeça.
  Cadernos são muito fáceis de serem descobertos, você deixa um em cima da cama e logo tem alguém lendo essas merdas, descobrindo seus segredos, invadindo sua privacidade, se bem que hoje as pessoas estão pouco se importando com a privacidade, na verdade elas torcem o tempo todo para que essa seja quebrada e elas estourem na rede com algum mico idiota ou um segredo bombástico. Eu pesquisei bem antes de criar isso, basta um click e você deixa tudo oculto. Problema resolvido.
  Eu não vou falar sobre a minha mãe, minha psicóloga sempre pergunta sobre ela, foda-se! A raiz dos meus problemas não é materna, Freud estava parcialmente errado, nem tudo é culpa da progenitora, mas foda-se o Freud também.
  Comecei o ano com chave de ouro, tirando da boca pra pagar a psicóloga, e frequentando o psiquiatra a cada três meses, ele não me disse o que eu tenho. "É preciso estudar seu caso com cautela". Mesmo não sabendo o que eu tenho, me entupiu de drogas, eu tomo todas, mais uma promessa que fiz à Clarice.
  Eu não tenho nada, só excesso de raiva e excesso de sinceridade. A sinceridade eu até consigo omitir, mas a raiva... Clarice é a única que consegue me acalmar. Eu não estou apaixonado nem nada do tipo, paixões são para fracassados, mas gosto de estar com ela, eu mataria por ela, ela representa o que há de bom na raça humana, ou talvez ela seja a única coisa boa nesse hospício, mas foda-se a Clarice. Ah, pros diabos com isso.

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